terça-feira, 5 de agosto de 2014

Dois cafés e a conta com Maria Nazaré


Catadora de lixo ficou 30 anos sem estudar e enfrentou depressão e problemas físicos até chegar à faculdade de Direito

Maria Nazaré: "Aprendi a não me colocar barreiras e a saber que nunca é tarde para mudar de vida" - Mauro Ventura / O GLOBO

Entre os alunos que começam amanhã o curso de Direito da UFF está Maria Nazaré dos Santos. Ela foge ao perfil tradicional de seus colegas. A começar pela idade, 55 anos. Depois, pela profissão: é catadora de lixo. Nascida em Viçosa (MG), filha de lavradores, foi cedo com a avó materna para Volta Redonda, após a separação dos pais — ele ficou em Minas e a mãe foi ser empregada doméstica no Rio. Aos 16 anos, foi a vez de Nazaré virar doméstica, e também babá. Morou em Barra do Piraí, Barra Mansa, Angra dos Reis, Praia Grande (SP), no Rio e, de novo, em Volta Redonda, onde vive até hoje, no morro de Belo Horizonte. É no campus da cidade que ela vai estudar. Uma das coordenadoras do movimento nacional de catadores de lixo, tirou boa nota no Enem e entrou pelo sistema de cotas. Ficou indecisa entre Psicologia e Direito. “Gosto muito de estudar a mente humana. Mas optei por brigar pela minha profissão. Os catadores têm muitos direitos conquistados que não são aplicados.” Retomar os estudos, já mais velha, lhe permitiu assinar a carteira de trabalho pela primeira vez na vida. Nazaré acredita que vai encontrar um ambiente bom na universidade. “Tenho facilidade de relacionamento.”

REVISTA O GLOBO: Por que a faculdade só agora, aos 55 anos?

MARIA NAZARÉ DOS SANTOS: Parei de estudar aos 16 anos, por causa de meu trabalho como babá e empregada doméstica. Comecei a repetir de ano e acabei interrompendo na sexta série do Ensino Médio. Tempos depois, tive depressão e fiquei também sem trabalhar. Não tinha condições de cuidar de crianças. As pessoas não entendem a depressão como doença, mas perdi de oito a dez anos da minha vida por causa dela. Nas crises, tinha mania de andar sem rumo. Queria ficar perto de mais gente, então passei a fazer os cursinhos que via na rua: de garçom, costureira, salgadeira, serigrafia. Um dia, vi uma clínica gratuita da prefeitura. Lá, fiz terapia de grupo, me consultei com psiquiatra. Era um tratamento pesado, piorei, parei com os remédios, comecei a reagir. Voltei a trabalhar, fui auxiliar de limpeza, recepcionista em academia de ginástica.

E como você virou catadora de lixo?

Nessas andanças pela rua, eu via que os catadores recolhiam material, vendiam e usavam o dinheiro para beber e comprar drogas. E aí, na clínica, encontrava essas mesmas pessoas internadas por causa da bebida e das drogas. Pensei: “Por que não vou reciclar e, em vez de gastar como eles, uso para me sustentar?” Uma vizinha catadora me levou um dia com ela, em 2001. Fui com uma vergonha danada. Catação na época era mal vista, mexer com isso era encarado com nojo. Durante três meses, eu revirei lixo, mexia em latão, mas não gostava. Sugeri então aos moradores da comunidade que pegassem o lixo que produziam, fizessem uma coleta seletiva e me entregassem. Ganhamos todos, porque as enchentes da região diminuíram.

Quando você retomou os estudos?

Em 2006, após 30 anos afastada. Voltei a estudar estimulada por um amigo, que dizia que eu tinha potencial. Fiz Educação para Jovens e Adultos (antigo supletivo). Tive que recomeçar desde o Ensino Fundamental. Terminei o Ensino Médio em 2010. Em 2011 e 2012 fiquei de novo sem estudar, porque estava montando uma cooperativa de catadores. Até que em 2013 veio o Enem e resolvi tentar. Achei que não tinha passado, afinal estava há dois anos parada. E estudei sozinha, já que não tinha dinheiro para cursinho. Lia nas horas vagas, das 23h à 1h. E às 6h já estava de pé para trabalhar. No meio da reciclagem achava muitos livros em boas condições, didáticos ou não. Para quem queria aprender, como eu, era o paraíso.

Foram mais de 30 anos sem estudar. Foi fácil fazer a prova?

Não. Tenho problema de tiroide e fiz a prova em plena crise. Fiquei toda desregulada. Minha concentração estava horrível, tinha insônia, dores nos rins, picos de pressão, colesterol alto, anemia. E minha vista está péssima, só enxergo de longe. Para estudar, tinha que afastar os textos do rosto. Estava sem tempo para cuidar disso, mas agora, com a faculdade, vou fazer os óculos. Minha maior preocupação é conciliar trabalho e estudo, a essa altura da vida. Mas vou me formar, amo desafios. Não entro numa luta para perder. Aprendi a não me colocar barreiras e a saber que nunca é tarde para mudar de vida.


O GLOBO

sábado, 2 de agosto de 2014

REVISÃO OAB: DIREITO PENAL COM A PROFESSORA PATY VANZOLINI

1.TEMPO DO CRIME: atividade. Momento da ação ou omissão (conduta), ainda que outro seja o momento do resultado

2.LUGAR DO CRIME: ubiqüidadeTanto no lugar da conduta,no todo ou em parte,qt no lugar em que ocorreu ou deveria o resultado

Também tem um outro assunto master, que é lei penal no tempo. Olha só:

3.LEI NO TEMPO: Irretroatividade da mais severa,retroatividade da mais benéfica, ultratividade da excepcional ou temporária

Teoria do crime é o must da FGV

4. CONDUTA: quem tem o dever de agir e não age responde pelo resultado como se o tivesse provocado (omissão imprópria)

5. RESULTADO: crime material exige resultado. Crime formal não exige. Corrupção de menores é crime formal

6.NEXO CAUSAL: Regra=conditio sine qua non ou equivalência dos antecedentes causais. Exceção=causa superveniente relativamente independente

7.CRIME NÃO CONSUMADO: por motivos alheios é “tentativa”. Por absoluta ineficácia do meio ou improp. do objeto é crime impossível

Lembra aquela do estupro em que o sujeito "não consegue"? É tentativa

8. Pela própria vontade é “desistência voluntária” ou “arrependimento eficaz” (ação de salvamento) Só pelos atos já praticados

É o caso que eu contei no dia D. do cidadão que depois de ver a moça denuda desiste de estuprar. Responde apenas por constrangimento ilegal

9. ERRO DE TIPO ESSENCIAL: escusável=exclui dolo e culpa,inescusável=exclui dolo mas permite a culpa,se houver previsão

10. ERRO DE PROIBIÇÃO: O agente não sabe que o que faz é proibido. Escusável=exclui culpabilidade,inescusável=reduz a pena

Patricia Vanzolini

@patvanzolini



REVISÃO DE PROCESSO PENAL COM O PROFESSOR FLÁVIO MARTINS

1- o inquérito policial é ESCRITO, INQUISITIVO, SIGILOSO, DISPENSÁVEL e INDISPONÍVEL (o delegado não pode arquivar o IP)

2- da decisão que rejeita a denúncia ou queixa cabe RECURSO EM SENTIDO ESTRITO. No JeCrim cabe APELAÇÃO.

3- O inquérito policial arquivado poderá ser reaberto se surgirem novas provas

4- a representação do ofendido deve ser oferecida no prazo de 6 meses, a contar do conhecimento da autoria

5.- o crime de estupro é de ação penal pública condicionada à representação (em regra)

6.- no crime de estupro, se a vítima é menor de 18 anos ou vulnerável, a ação penal é pública incondicionada

7.- São crimes federais: crime a bordo de navio ou avião, crime político, contra o sistema financeiro, direitos indígenas etc.

8- Quem julga os crimes do Prefeito é o TJ, mas se for crime federal será o TRF. Já os crimes do governador são julgados pelo STJ

9- A prisão preventiva pode ser decretada durante o Inquérito ou durante o Processo. Já a Temporária, só durante o IP.

10.- Três recursos admitem o juízo de retratação: RSE, agravo em execução e carta testemunhável.

Flávio Martins

@sigaoflavio


Coordenador dos Cursos Jurídicos do Complexo Damásio de Jesus. Professor de Direito Processual Penal e Direito Constitucional.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Crimes eleitorais na propaganda eleitoral


Começado o processo eleitoral, a propaganda eleitoral, desde 06 de julho, já se encontra na rua.
Felizmente para uns, e infelizmente para outros, nos tempos hodiernos, as restrições à prática da propaganda são várias e variadas.
Interessa-nos, pois, as restrições penais.
Mas, afinal, o que é propaganda eleitoral?
Propaganda eleitoral é aquela prática que leva ao conhecimento geral e indiscriminado, ainda que de forma dissimulada, eventual candidatura, a ação política que se pretende desenvolver e/ou as razões que induzam o cidadão a crer que determinado indivíduo é o mais apto à ocupação de eventual cargo eletivo em disputa, ou na iminência de o ser.
Há precedentes no Tribunal Superior Eleitoral nesse sentido, a saber:
Agravo regimental. Recurso especial. Propaganda eleitoral extemporânea (art. 36 da Lei nº 9.504/97). Governador. Propaganda partidária. Multa. Possibilidade. Reexame de provas. Inviabilidade. Competência. Juiz Auxiliar. Representação. Ajuizamento. Prazo de 48h (quarenta e oito horas). Ausência de previsão legal. Dissídio jurisprudencial não configurado.
 Ato de propaganda eleitoral é aquele que leva ao conhecimento geral, embora de forma dissimulada, a candidatura, mesmo apenas postulada, e a ação política que se pretende desenvolver ou razões que induzam a concluir que o beneficiário é o mais apto ao exercício de função pública. Precedentes. (AGRAVO REGIMENTAL EM RECURSO ESPECIAL ELEITORAL nº 26202, Acórdão de 27/02/2007, Relator(a) Min. JOSÉ GERARDO GROSSI, Publicação: DJ - Diário de justiça, Data 16/03/2007, Página 210).
Pois bem. Nada obstante seja indispensável que o eleitor saiba quem são os pretendentes à ocupação de determinado Cargo, algo que se dará por intermédio da propaganda, como dito, são plurais as restrições que cercam o instituto, donde várias condutas acabam, inclusive, por serem tipificadas na legislação pátria como crimes eleitorais.
Na coluna anterior trouxemos as fontes legais que preveem os crimes eleitorais.
Reforce-se:
a)   Código Eleitoral – arts. 289 a 354;
b) Lei das Eleições – arts. 33, § 4º; 34, §§ 2º e 3º; 39, § 5º; 40; 68, § 2º; 72; 87, § 4º; 91, parágrafo único;
c) Lei de Inelegibilidades – art. 25;
d) Leis esparsas, a exemplo  da lei que trata dos transportes dos eleitores em dia de eleição – Lei nº 6.091/74, art. 11.
Percebe-se, portanto, que há um extenso arcabouço legal que vem a tipificar os crimes eleitorais, muitos deles no que tange à prática de propaganda de cunho eleitoreiro.
Não iremos adentrar aos meandros de todas. Salientemos os que envolvem diretamente a propaganda eleitoral, reforçando, por oportuno que, por exemplo, o Código Eleitoral remonta à decada de 60, onde, a partir daí, vemos até os dias de hoje disposições características de um regime autoritário, em desuso, por conseguinte, como a que veda a propaganda eleitoral de guerra e de processos violentos para subverter o regime (?).
De qualquer forma, em caráter geral, é vedada a propaganda eleitoral que implique oferecimento, promessa ou solicitação de dinheiro, dádiva, rifa, sorteio ou vantagem de qualquer natureza, que perturbe o sossego público, com algazarra ou abuso de instrumentos sonoros ou acústicos, por meio de impressos ou de objeto que pessoa inexperiente ou rústica possa confundir com moeda, que prejudique a higiene e a estética urbana, que caluniar, difamar ou injuriar qualquer pessoa, bem como atingir órgãos ou entidades que exerçam autoridade pública, que desrespeite os símbolos nacionais, desde quarenta a oito horas antes até vinte e quatro horas depois da eleição, qualquer propaganda política no rádio e na televisão, comício e reuniões públicas, ressalvada a propaganda na internet, a propaganda em língua estrangeira, que empregue meios publicitários destinados a criar, artificialmente, na opinião pública, estados mentais, emocionais ou passionais, etc.
Em específico, constitui crime, punível com reclusão de até 4 (quatro) anos e pagamento de 5 (cinco) a 15 (quinze) dias-multa, dar, oferecer, prometer, solicitar ou receber, para si ou para outrem, dinheiro, dádiva, ou qualquer outra vantagem, para obter ou dar voto e para conseguir ou prometer abstenção, ainda que a oferta não seja aceita (crime de corrupção eleitoral, previsto no artigo 299 do Código Eleitoral; v.g. artigo 41-A da Lei 9.504/97 – captação ilícita de sufrágio).
É crime eleitoral, da mesma forma, punível com detenção de 2 (dois) meses a 1 (um) ano ou pagamento de 120 (cento e vinte) a 150 (cento e cinquenta) dias-multa, divulgar, na propaganda, fatos que se sabem inverídicos, em relação a partidos ou a candidatos, capazes de exercerem influência perante o eleitorado, sendo agravada a pena para este crime quando o crime é cometido pela imprensa, rádio ou televisão (Divulgação de fatos inverídicos – art. 323 do CE).  À incidência do preceito, vale o friso, indispensável é que os textos imputados como inverídicos sejam fruto de matéria paga, algo que induz o desuso ao menos com relação a propaganda na TV e Rádio, vez que a legislação veda, no período crítico, qualquer veiculação de propaganda eleitoral paga nos veículos de comunicação precitados, limitando-se, pois, ao horário eleitoral gratuito.
Constitui crime eleitoral caluniar, difamar ou injuriar alguém por meio de propaganda de cunho eleitoral (arts. 324, 325 e 326), não havendo necessidade de que a ofensa seja pratica diretamente contra candidato, desde que, no entanto, esteve envolta à disputa eleitoral.
É crime inutilizar ou impedir o exercício da propaganda eleitoral (arts. 331 e 332 do Código Eleitoral).
Veja-se, igualmente, que, além de consubstanciar-se em propaganda eleitoral irregular, constitui crime eleitoral o uso de símbolos, frases ou imagens associadas às de uso de órgão de governo, empresa ou sociedade de economia mista (art. 40, da Lei nº 9.504/97), tamanha é a gravidade da prática; caracteriza crime eleitoral divulgar pesquisa fraudulenta (art. 33, §4°, da Lei n°. 9.504/97), etc.
No dia da eleição, importante frisar, por fim, que a legislação eleitoral permite a manifestação individual e silenciosa do eleitorado, vedando, no entanto, as seguintes condutas:
a) o uso de alto-falantes e amplificadores de som ou a promoção de comício ou carreata;
b) a arregimentação de eleitor ou a propaganda de boca de urna;
c) a divulgação de qualquer espécie de propaganda de partidos políticos ou de seus candidatos.
d) A divulgação de pesquisa eleitoral até as 17 horas do dia da eleição (eleições para Deputado Estadual, Federal, Senador e Governador) e até as 19h, no primeiro turno, e 20h, no segundo turno, no tocante à eleição presidencial;
e) O transporte irregular de eleitores, caracterizado como tal aquele que tem por finalidade angariar benefícios eleitoreiros.
A legislação criminal eleitoral, como se vê, é vasta, carregando inúmeros dispositivos que tipificam como crimes eleitorais várias condutas envoltas à propaganda eleitoral.
São condutas, enfim, que ofendem os princípios resguardados pela legislação eleitoral e, em especial, os bens jurídicos protegidos pela lei penal eleitoral, dentre eles importantes sustentáculos ao regime democrático, como, por exemplo, a liberdade de voto do eleitor e a isonomia entre os candidatos. 




Dr. Guilherme Rodrigues Carvalho Barcelos (Guilherme Barcelos) é Advogado em Porto Alegre/RS, Militante no Direito Eleitoral. Pós Graduado em Direito Eleitoral. Autor de artigos jurídicos publicados em diversos meios (Revista do TSE, inclusive)

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Pegava livros no lixo: ex-catador de Brasília conta como virou médico


Cícero Batista venceu a pobreza e se formou em medicina
Cícero Batista venceu a pobreza e se formou em medicina

O dia seis de junho de 2014 é uma data muito importante para Cícero Pereira Batista, 33. É data da sua formatura, quando ele fez o "Juramento de Hipócrates" e jurou fidelidade à medicina. O diploma na tão sonhada carreira foi um investimento de quase oito anos da vida do ex-catador.
Natural de Taguatinga, cidade satélite a 22,8 km de Brasília, Cícero nasceu em família pobre e precisou de muita perseverança para alcançar a formação em uma das carreiras mais concorridas nos vestibulares. Ele só começou a fazer a graduação aos 26 anos.
"Minha família era muito pobre. Já passei fome e pegava comida e livros do lixo. Para ganhar algum dinheiro eu vigiava carro, vendia latinha. Foi tudo muito difícil pra mim, mas chegar até aqui é uma sensação incrível de alívio. Eu conseguir superar todas as minhas dificuldades. A sensação é de que posso tudo! A educação mudou minha vida, me tirou da miséria extrema", conta Cícero.
Arquivo pessoalNão há desculpa para não seguir os sonhos. É preciso focar naquilo que se quer. Não é uma questão de inteligência e sim de persistência. A educação mudou a minha vida e pode mudar a de qualquer pessoaCícero Pereira Batista, 33, ex-catador que virou médico
O histórico familiar de Cícero é complicado: órfão de pai desde os três anos e com mãe alcoólatra, o médico tinha dez irmãos. Dois dos irmãos foram assassinados.
Quando tinha 5 anos, o menino pegava o que podia ser útil no lixo. Inclusive livros, apesar de não saber ler. Com o tempo, conta o ex-catador, eles foram servindo de inspiração. Ficava mais feliz quando encontrava títulos de biologia, ciências. Certa vez encontrou alguns volumes da Enciclopédia Barsa e "descobriu Pedro Álvares Cabral, a literatura, a geografia".
Cícero é o único da família que concluiu o ensino médio e a graduação. Para ele, a educação era a única saída: "Diante da minha situação social eu não tinha escolha. Era estudar ou estudar para conseguir sair da miséria extrema". Ele terminou o ensino fundamental na escola pública em 1997 -- na época as séries iam do 1º ao 8º ano. Entre 1998 e 2001, fez o ensino médio integrado com curso técnico em enfermagem.

Ajuda dos professores e colegas

"Quando eu fazia o ensino médio técnico eu morava em Taguatinga e estudava na Ceilândia. Não tinha dinheiro para o transporte e nem para a comida. Andava uns 20 km, 30 km a pé. Muitas vezes eu desmaiava de fome na sala de aula", explica.
Ao perceber as dificuldades do rapaz, professores e colegas começaram a organizar doações para Cícero de dinheiro, vale-transporte e mesmo comida. "Eu era orgulhoso e nem sempre queria aceitar, mas, devido à situação, não tinha jeito. Eu tinha muita vergonha, mas nunca deixei de estudar", conta.
Na época da faculdade, Cícero também recebeu abrigo de um amigo quando passou em medicina numa particular em 2006 em Araguari, a 391 km de Brasília. "Frequentava as aulas durante a semana em Minas e aos finais de semana vinha para Brasília para trabalhar. Era bem corrido", diz. Ele conseguiu segurar as contas por um ano e meio. "Eu ganhava cerca de RS 1.300 e pagava RS 1.400 [de mensalidade]. Até cheguei a pedir o Fies [Fundo de Financiamento Estudantil] por seis meses, mas no fim as contas foram apertando ainda mais e parei".
Arquivo pessoalA educação mudou minha vida, me tirou da miséria extremaCícero Pereira Batista, 33, ex-catador que se formou em medicina
Ao voltar para Brasília decidiu fazer Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) para conseguir uma bolsa do Prouni (Programa Universidade para Todos). Estudou por conta própria, fez a prova no final de 2007 e conseguiu uma bolsa integral em uma universidade particular de Paracatu (MG), a 237,7 km de Brasília. Foram mais seis meses -- e Cicero voltou a Brasília mais uma vez.
No ano seguinte, fez o Enem mais uma vez. Ele queria estudar mais perto de casa por causa do trabalho -- ele era técnico de enfermagem concursado -- e da família. Com sua nova nota do Enem, ele conseguiu uma vaga com bolsa integral na Faciplac (Faculdades Integradas da União Educacional do Planalto Central), na unidade localizada na cidade satélite Gama, 34,6 km de Brasília.
"Tive que começar tudo zero novamente. Tive vontade de desistir na época. Poxa, já tinha feito um total de dois anos do curso de medicina, mas não consegui reaproveitar nenhuma matéria. Mas no fim deu certo", conta o médico que enfrentou os anos da faculdade também com a ajuda dos livros do projeto Açougue Cultural, uma iniciativa que empresta livros gratuitamente nas paradas de ônibus de Brasília.
Atualmente, Cícero é diretor clínico de um hospital municipal e trabalha em outros dois. O momento para ele agora é o de "capitalizar" [ganhar dinheiro] para melhorar de vida e ajudar a família. Cursar um doutorado fora do Brasil também está entre seus planos.
"Não há desculpa para seguir os sonhos. É preciso focar naquilo que se quer. Não é uma questão de inteligência e sim de persistência. A educação mudou a minha vida e pode mudar a de qualquer pessoa", conclui.

G1

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Aprovado em 1º lugar na Receita Federal largou emprego para estudar

Jovem enfrentou concorrência de 68,5 mil para o cargo de auditor-fiscal.
Kaique Knothe se dedicou somente aos estudos por dez meses.


Kaique Knothe de Andrade somente estudou por 10 meses para concurso da Receita Federal (Foto: Arquivo Pessoal/ Kaique Knothe de Andrade)Kaique Knothe de Andrade é formado em engenharia, mas não gostou da área (Foto: Arquivo Pessoal)
Kaique Knothe de Andrade, de 25 anos, conseguiu, em apenas dez meses, o cargo que milhares de brasileiros sonham em ter: auditor-fiscal da Receita Federal. Com salário de R$ 14,9 mil, o posto de nível superior é um dos mais disputados no mundo dos concursos. Na última edição, 68,5 mil se inscreveram para tentar uma das 278 vagas. Sem contar as reservadas para pessoas com deficiência, a concorrência foi de 249,5 candidatos por vaga.

“Acreditava que tinha chances de passar no concurso, mas estaria mentindo se dissesse que esperava ser o primeiro. Apenas saí com a impressão de que tinha feito uma boa prova”, conta.
O resultado final do concurso foi divulgado e homologado em 2 de julho, e agora o jovem espera a convocação para assumir o cargo. A partir dessa data, o concurso tem validade de seis meses.
Foi uma das coisas mais corajosas que fiz, mas sei que nem todos podem apenas estudar. Acredito que vale a pena dar essa parada"
Kaique Knothe de Andrade
Formando em engenharia mecânica pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em 2012, Andrade estudou por três ano e meio na Ecole Centrale de Nantes, na França, durante a graduação. Começou a carreira em uma empresa de consultoria estratégica, mas não estava feliz. “Tinha que ajudar as empresas a se posicionarem no mercado e ajudar a aumentar seu faturamento, mas não gostava do que estava fazendo”, diz.

Em junho de 2013 veio a decisão de deixar o emprego para se dedicar somente ao estudo para concursos. “Foi difícil porque tinha uma boa remuneração, e ela até poderia atingir o salário da Receita em alguns anos."
Receita Federal (Foto: Reprodução/EPTV)Receita Federal, a primeira opção de Kaique
de Andrade Foto: Reprodução/EPTV)
Na escolha, pesaram a qualidade de vida e a segurança que um cargo na área pública poderia proporcionar. "Estava trabalhando muito e o custo de vida também era elevado. Resolvi trabalhar para o estado em vez de somente gerar benefício para os clientes.”
Um mês depois ele estava de volta à casa dos pais em Rio Claro, sua cidade natal no interior de São Paulo, para reduzir os gastos. Andrade fez uma poupança para pagar um cursinho e arcar com as próprias despesas, que passaram a ser bem controladas.
“Foi uma das coisas mais corajosas que fiz, mas sei que nem todos podem apenas estudar. Acredito que, para quem tem essa possibilidade, vale a pena dar essa parada, porque ajuda muito na preparação”, diz o jovem.
Órgão/ data da provaCargoTempo de estudoStatus
Ministério da Fazenda 

Agosto de 2013
Engenheiro1 mês para a Receita e 5 dias para específicasAprovadoem 2º lugar em São Paulo
Ministério do Trabalho e Emprego

Setembro de 2013
Auditor do trabalho2 meses para a Receita e 15 dias para específicasNão aprovado
Ministério Público da União (MPU)

Setembro de 2013
Perito - engenharia mecânica2 meses para a Receita e 10 dias para específicasNão aprovado
Banco Central

Outubro de 2013
Analista3 meses para a Receita e 15 dias para específicasNão classificado
Agência Nacional do Cinema (Ancine) 

Novembro de 2013
Analista4 meses para a Receita e 5 dias para específicasAprovado- lista de espera
Financiadora de Estudos e Projetos (Finep)

Janeiro de 2014
Analista6 meses para a Receita e 5 dias para específicasAprovado - cadastro de reserva
Caixa Econômica Federal 

Março de 2014
Engenheiro mecânico8 meses para a ReceitaNão aprovado
Instituto Nacional do Seguro Social (INSS)

Março de 2014
Analista - engenharia mecânica8 meses para a Receita e 10 dias para específicasAprovadoem 1º lugar em São Paulo
Empresa de Pesquisa Energética (EPE) 

Abril de 2014
Analista de pesquisa energética9 meses para a Receita e 5 dias para específicasAprovado- cadastro de reserva
Receita Federal 

Maio de 2014
Auditor-fiscal10 mesesAprovadoem 1º lugar
Receita foi a 1ª opção
Andrade não tem ninguém na família que seja concursado ou que trabalhe em órgãos públicos. Segundo ele, um amigo que atua como auditor na área de tributação falou sobre o dia a dia da profissão e despertou o interesse do jovem. “Sempre ouvi falar sobre o concurso de auditor da Receita Federal. Mas fui vendo que a profissão mexia muito com a área de exatas e tinha muito a ver com a minha formação.”

O jovem chegou a fazer nove concursos (veja na tabela ao lado), além da Receita Federal, o seu principal objetivo, para conseguir um cargo que o permitisse continuar estudando e também para pegar "ritmo" de prova. Do total, foi aprovado em cinco, sendo que está na lista de espera de três destes.
Atualmente, Andrade é engenheiro no Ministério da Fazenda, e, coincidentemente, trabalha dentro da Receita Federal. Ele chegou lá após um concurso que prestou em agosto de 2013, um mês depois de largar o emprego na iniciativa privada e começar a estudar para concurso. Foi aprovado em 2º lugar em São Paulo e assumiu o cargo há três meses.
Preparação
“No começo estava bem perdido. Busquei o cursinho da LFG e comprei apostilas específicas para algumas disciplinas. Procurava ouvir o professor e já ler o conteúdo das disciplinas para acompanhar a aula”, diz. Andrade ia para o curso de manhã e ainda estudava em casa por mais 10h, com vídeos e apostilas.
O foco dos estudos eram as disciplinas da Receita. As específicas de outros concursos, como Agência Nacional de Cinema (Ancine) e Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), foram vistas por poucos dias antes das respectivas provas.

Foram oito meses de estudo antes de a Receita divulgar o edital do concurso e dois meses depois disto. Quando confirmou os conteúdos que cairiam na prova, Andrade passou a se dedicar mais às legislações específicas: legislação aduaneira, Imposto de Renda, entre outras, e a fazer questões de provas anteriores. “A partir daí não tive mais final de semana. Não queria ficar deslocado da realidade.”

“Tive que aprender contabilidade, que é uma matéria bem complicada, mas tive um boa surpresa, acertando 90% da prova”, conta.
Boas estratégias
Segundo Andrade, ter feito provas de outros concursos ajudaram na hora do exame da Receita. “Acho que tive três pilares nessa preparação: boa base de exatas, ter encontrado um bom método de estudo e controle emocional na hora da prova.”
Dicas do 1° colocado
- Tenha uma boa base antes de avançar
- Encontre um bom método
- Avalie o estudo e mude o que não dá certo
- Tenha controle emocional na hora da prova
- Persista, mantendo foco e motivação
“A primeira coisa é não ter medo do concurso. Pode ser que demore quatro anos, mas às vezes a pessoa pode se sair bem antes do que imagina. É uma coisa difícil, por isso é importante manter o foco e a motivação”, destaca.
Para quem já está estudando, ele indica que os candidatos analisem a qualidade do estudo e se estão conseguindo absorver o conteúdo visto. “Se uma tática não está funcionando, é melhor buscar outra e mudar. Não adianta somente ler a teoria e não absorver nada”, diz. Já na hora da prova, o jovem considera que o controle emocional é um dos aspectos indispensáveis para se sair bem.

Sobre candidatos que tentam todos os concursos, Andrade deixa um alerta: “Talvez não valha a pena tentar diversas vagas e não ter um foco”. Ele também lembra que isso pode roubar um tempo precioso de estudo para o cargo dos sonhos.

G1

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Nunca é tarde para aprender: mulher de 97 anos se forma em direito em MG

"Eu era das primeiras a chegar na escola", conta a estudante e futura bacharel de direito Chames Salles Rolim, 97
"Eu era das primeiras a chegar na escola", conta a estudante e futura bacharel de direito Chames Salles Rolim, 97


No dia 8 de agosto, a família de Chames Salles Rolim, 97, vai se reunir para comemorar o feito da matriarca: ela está se formando em direito. E a festança em Ipatinga, município mineiro que fica a 277 km de Belo Horizonte, vai ser animada: são nove filhos, 28 netos e 16 bisnetos, mais noras e genros.
 "Você [diz a futura bacharel ao repórter] também está convidado para o jantar, na sexta-feira, um dia depois da formatura. Dia de São Domingos. A família inteira vai vir. Não sei o que faço, são muitos amigos. Não dá para convidar todo mundo. Mas eu quero que todos estejam aqui", conta Chames Rolim, que deixou a piscina de sua casa, onde faz exercícios matinais diariamente, para conversar com oUOL, na manhã desta sexta-feira (18). Ela diz que está muito feliz e "satisfeita com a vida".
Viúva desde 1997, ela só decidiu retomar os estudos em 2009, quando estava com 92 anos. Quando o marido era vivo, ele não a deixava estudar. Ela se casou aos 17 anos com o comerciante José Maria Rolim em Santana do Paraíso (MG), que fica cerca de 250 km de Belo Horizonte. Lá, eles trabalharam juntos na farmácia da família por 63 anos. Após a perda do marido, Chames foi morar com um dos netos, José Irnac Rolim em Ipatinga, quando tinha 80 anos.

Vestibular e faculdade

Ela atribui um infarto que teve na época do vestibular à tensão das provas. "Foi terrível. Eu não conseguia aprender. Não guardava as coisas. Fiquei dez dias na UTI (Unidade de Tratamento Intensivo) do hospital", afirma. Ela explica que, no período de convalescência, recebeu um grande "apoio e solidariedade" da família e dos amigos. E ela foi aprovada em direito na Fadipa (Faculdade de Direito de Ipatinga).
"Eu me dediquei muito nesses cinco anos. Eu era das primeiras a chegar na escola", conta.
Na última quarta-feira, 16, Chames Rolim foi ao fórum de Ipatinga para cumprir o último requisito para a conclusão do curso de direito: acompanhar a realização de audiências de julgamentos. "Não conhecia nada aqui. Nunca tinha vindo ao fórum. Mas estou assimilando o máximo que posso".
Ela diz que não vai tentar fazer a prova de habilitação na OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) para exercer a profissão de advogada: "Sei que a minha idade não me dá muito prazo. Por isso, o que eu quero é ser útil a quem me procurar, compartilhar o conhecimento. Se não souber responder algo, vou orientar a pessoa a procurar quem saiba".

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