sexta-feira, 25 de julho de 2014

Pegava livros no lixo: ex-catador de Brasília conta como virou médico


Cícero Batista venceu a pobreza e se formou em medicina
Cícero Batista venceu a pobreza e se formou em medicina

O dia seis de junho de 2014 é uma data muito importante para Cícero Pereira Batista, 33. É data da sua formatura, quando ele fez o "Juramento de Hipócrates" e jurou fidelidade à medicina. O diploma na tão sonhada carreira foi um investimento de quase oito anos da vida do ex-catador.
Natural de Taguatinga, cidade satélite a 22,8 km de Brasília, Cícero nasceu em família pobre e precisou de muita perseverança para alcançar a formação em uma das carreiras mais concorridas nos vestibulares. Ele só começou a fazer a graduação aos 26 anos.
"Minha família era muito pobre. Já passei fome e pegava comida e livros do lixo. Para ganhar algum dinheiro eu vigiava carro, vendia latinha. Foi tudo muito difícil pra mim, mas chegar até aqui é uma sensação incrível de alívio. Eu conseguir superar todas as minhas dificuldades. A sensação é de que posso tudo! A educação mudou minha vida, me tirou da miséria extrema", conta Cícero.
Arquivo pessoalNão há desculpa para não seguir os sonhos. É preciso focar naquilo que se quer. Não é uma questão de inteligência e sim de persistência. A educação mudou a minha vida e pode mudar a de qualquer pessoaCícero Pereira Batista, 33, ex-catador que virou médico
O histórico familiar de Cícero é complicado: órfão de pai desde os três anos e com mãe alcoólatra, o médico tinha dez irmãos. Dois dos irmãos foram assassinados.
Quando tinha 5 anos, o menino pegava o que podia ser útil no lixo. Inclusive livros, apesar de não saber ler. Com o tempo, conta o ex-catador, eles foram servindo de inspiração. Ficava mais feliz quando encontrava títulos de biologia, ciências. Certa vez encontrou alguns volumes da Enciclopédia Barsa e "descobriu Pedro Álvares Cabral, a literatura, a geografia".
Cícero é o único da família que concluiu o ensino médio e a graduação. Para ele, a educação era a única saída: "Diante da minha situação social eu não tinha escolha. Era estudar ou estudar para conseguir sair da miséria extrema". Ele terminou o ensino fundamental na escola pública em 1997 -- na época as séries iam do 1º ao 8º ano. Entre 1998 e 2001, fez o ensino médio integrado com curso técnico em enfermagem.

Ajuda dos professores e colegas

"Quando eu fazia o ensino médio técnico eu morava em Taguatinga e estudava na Ceilândia. Não tinha dinheiro para o transporte e nem para a comida. Andava uns 20 km, 30 km a pé. Muitas vezes eu desmaiava de fome na sala de aula", explica.
Ao perceber as dificuldades do rapaz, professores e colegas começaram a organizar doações para Cícero de dinheiro, vale-transporte e mesmo comida. "Eu era orgulhoso e nem sempre queria aceitar, mas, devido à situação, não tinha jeito. Eu tinha muita vergonha, mas nunca deixei de estudar", conta.
Na época da faculdade, Cícero também recebeu abrigo de um amigo quando passou em medicina numa particular em 2006 em Araguari, a 391 km de Brasília. "Frequentava as aulas durante a semana em Minas e aos finais de semana vinha para Brasília para trabalhar. Era bem corrido", diz. Ele conseguiu segurar as contas por um ano e meio. "Eu ganhava cerca de RS 1.300 e pagava RS 1.400 [de mensalidade]. Até cheguei a pedir o Fies [Fundo de Financiamento Estudantil] por seis meses, mas no fim as contas foram apertando ainda mais e parei".
Arquivo pessoalA educação mudou minha vida, me tirou da miséria extremaCícero Pereira Batista, 33, ex-catador que se formou em medicina
Ao voltar para Brasília decidiu fazer Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) para conseguir uma bolsa do Prouni (Programa Universidade para Todos). Estudou por conta própria, fez a prova no final de 2007 e conseguiu uma bolsa integral em uma universidade particular de Paracatu (MG), a 237,7 km de Brasília. Foram mais seis meses -- e Cicero voltou a Brasília mais uma vez.
No ano seguinte, fez o Enem mais uma vez. Ele queria estudar mais perto de casa por causa do trabalho -- ele era técnico de enfermagem concursado -- e da família. Com sua nova nota do Enem, ele conseguiu uma vaga com bolsa integral na Faciplac (Faculdades Integradas da União Educacional do Planalto Central), na unidade localizada na cidade satélite Gama, 34,6 km de Brasília.
"Tive que começar tudo zero novamente. Tive vontade de desistir na época. Poxa, já tinha feito um total de dois anos do curso de medicina, mas não consegui reaproveitar nenhuma matéria. Mas no fim deu certo", conta o médico que enfrentou os anos da faculdade também com a ajuda dos livros do projeto Açougue Cultural, uma iniciativa que empresta livros gratuitamente nas paradas de ônibus de Brasília.
Atualmente, Cícero é diretor clínico de um hospital municipal e trabalha em outros dois. O momento para ele agora é o de "capitalizar" [ganhar dinheiro] para melhorar de vida e ajudar a família. Cursar um doutorado fora do Brasil também está entre seus planos.
"Não há desculpa para seguir os sonhos. É preciso focar naquilo que se quer. Não é uma questão de inteligência e sim de persistência. A educação mudou a minha vida e pode mudar a de qualquer pessoa", conclui.

G1

quinta-feira, 24 de julho de 2014

Aprovado em 1º lugar na Receita Federal largou emprego para estudar

Jovem enfrentou concorrência de 68,5 mil para o cargo de auditor-fiscal.
Kaique Knothe se dedicou somente aos estudos por dez meses.


Kaique Knothe de Andrade somente estudou por 10 meses para concurso da Receita Federal (Foto: Arquivo Pessoal/ Kaique Knothe de Andrade)Kaique Knothe de Andrade é formado em engenharia, mas não gostou da área (Foto: Arquivo Pessoal)
Kaique Knothe de Andrade, de 25 anos, conseguiu, em apenas dez meses, o cargo que milhares de brasileiros sonham em ter: auditor-fiscal da Receita Federal. Com salário de R$ 14,9 mil, o posto de nível superior é um dos mais disputados no mundo dos concursos. Na última edição, 68,5 mil se inscreveram para tentar uma das 278 vagas. Sem contar as reservadas para pessoas com deficiência, a concorrência foi de 249,5 candidatos por vaga.

“Acreditava que tinha chances de passar no concurso, mas estaria mentindo se dissesse que esperava ser o primeiro. Apenas saí com a impressão de que tinha feito uma boa prova”, conta.
O resultado final do concurso foi divulgado e homologado em 2 de julho, e agora o jovem espera a convocação para assumir o cargo. A partir dessa data, o concurso tem validade de seis meses.
Foi uma das coisas mais corajosas que fiz, mas sei que nem todos podem apenas estudar. Acredito que vale a pena dar essa parada"
Kaique Knothe de Andrade
Formando em engenharia mecânica pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), em 2012, Andrade estudou por três ano e meio na Ecole Centrale de Nantes, na França, durante a graduação. Começou a carreira em uma empresa de consultoria estratégica, mas não estava feliz. “Tinha que ajudar as empresas a se posicionarem no mercado e ajudar a aumentar seu faturamento, mas não gostava do que estava fazendo”, diz.

Em junho de 2013 veio a decisão de deixar o emprego para se dedicar somente ao estudo para concursos. “Foi difícil porque tinha uma boa remuneração, e ela até poderia atingir o salário da Receita em alguns anos."
Receita Federal (Foto: Reprodução/EPTV)Receita Federal, a primeira opção de Kaique
de Andrade Foto: Reprodução/EPTV)
Na escolha, pesaram a qualidade de vida e a segurança que um cargo na área pública poderia proporcionar. "Estava trabalhando muito e o custo de vida também era elevado. Resolvi trabalhar para o estado em vez de somente gerar benefício para os clientes.”
Um mês depois ele estava de volta à casa dos pais em Rio Claro, sua cidade natal no interior de São Paulo, para reduzir os gastos. Andrade fez uma poupança para pagar um cursinho e arcar com as próprias despesas, que passaram a ser bem controladas.
“Foi uma das coisas mais corajosas que fiz, mas sei que nem todos podem apenas estudar. Acredito que, para quem tem essa possibilidade, vale a pena dar essa parada, porque ajuda muito na preparação”, diz o jovem.
Órgão/ data da provaCargoTempo de estudoStatus
Ministério da Fazenda 

Agosto de 2013
Engenheiro1 mês para a Receita e 5 dias para específicasAprovadoem 2º lugar em São Paulo
Ministério do Trabalho e Emprego

Setembro de 2013
Auditor do trabalho2 meses para a Receita e 15 dias para específicasNão aprovado
Ministério Público da União (MPU)

Setembro de 2013
Perito - engenharia mecânica2 meses para a Receita e 10 dias para específicasNão aprovado
Banco Central

Outubro de 2013
Analista3 meses para a Receita e 15 dias para específicasNão classificado
Agência Nacional do Cinema (Ancine) 

Novembro de 2013
Analista4 meses para a Receita e 5 dias para específicasAprovado- lista de espera
Financiadora de Estudos e Projetos (Finep)

Janeiro de 2014
Analista6 meses para a Receita e 5 dias para específicasAprovado - cadastro de reserva
Caixa Econômica Federal 

Março de 2014
Engenheiro mecânico8 meses para a ReceitaNão aprovado
Instituto Nacional do Seguro Social (INSS)

Março de 2014
Analista - engenharia mecânica8 meses para a Receita e 10 dias para específicasAprovadoem 1º lugar em São Paulo
Empresa de Pesquisa Energética (EPE) 

Abril de 2014
Analista de pesquisa energética9 meses para a Receita e 5 dias para específicasAprovado- cadastro de reserva
Receita Federal 

Maio de 2014
Auditor-fiscal10 mesesAprovadoem 1º lugar
Receita foi a 1ª opção
Andrade não tem ninguém na família que seja concursado ou que trabalhe em órgãos públicos. Segundo ele, um amigo que atua como auditor na área de tributação falou sobre o dia a dia da profissão e despertou o interesse do jovem. “Sempre ouvi falar sobre o concurso de auditor da Receita Federal. Mas fui vendo que a profissão mexia muito com a área de exatas e tinha muito a ver com a minha formação.”

O jovem chegou a fazer nove concursos (veja na tabela ao lado), além da Receita Federal, o seu principal objetivo, para conseguir um cargo que o permitisse continuar estudando e também para pegar "ritmo" de prova. Do total, foi aprovado em cinco, sendo que está na lista de espera de três destes.
Atualmente, Andrade é engenheiro no Ministério da Fazenda, e, coincidentemente, trabalha dentro da Receita Federal. Ele chegou lá após um concurso que prestou em agosto de 2013, um mês depois de largar o emprego na iniciativa privada e começar a estudar para concurso. Foi aprovado em 2º lugar em São Paulo e assumiu o cargo há três meses.
Preparação
“No começo estava bem perdido. Busquei o cursinho da LFG e comprei apostilas específicas para algumas disciplinas. Procurava ouvir o professor e já ler o conteúdo das disciplinas para acompanhar a aula”, diz. Andrade ia para o curso de manhã e ainda estudava em casa por mais 10h, com vídeos e apostilas.
O foco dos estudos eram as disciplinas da Receita. As específicas de outros concursos, como Agência Nacional de Cinema (Ancine) e Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), foram vistas por poucos dias antes das respectivas provas.

Foram oito meses de estudo antes de a Receita divulgar o edital do concurso e dois meses depois disto. Quando confirmou os conteúdos que cairiam na prova, Andrade passou a se dedicar mais às legislações específicas: legislação aduaneira, Imposto de Renda, entre outras, e a fazer questões de provas anteriores. “A partir daí não tive mais final de semana. Não queria ficar deslocado da realidade.”

“Tive que aprender contabilidade, que é uma matéria bem complicada, mas tive um boa surpresa, acertando 90% da prova”, conta.
Boas estratégias
Segundo Andrade, ter feito provas de outros concursos ajudaram na hora do exame da Receita. “Acho que tive três pilares nessa preparação: boa base de exatas, ter encontrado um bom método de estudo e controle emocional na hora da prova.”
Dicas do 1° colocado
- Tenha uma boa base antes de avançar
- Encontre um bom método
- Avalie o estudo e mude o que não dá certo
- Tenha controle emocional na hora da prova
- Persista, mantendo foco e motivação
“A primeira coisa é não ter medo do concurso. Pode ser que demore quatro anos, mas às vezes a pessoa pode se sair bem antes do que imagina. É uma coisa difícil, por isso é importante manter o foco e a motivação”, destaca.
Para quem já está estudando, ele indica que os candidatos analisem a qualidade do estudo e se estão conseguindo absorver o conteúdo visto. “Se uma tática não está funcionando, é melhor buscar outra e mudar. Não adianta somente ler a teoria e não absorver nada”, diz. Já na hora da prova, o jovem considera que o controle emocional é um dos aspectos indispensáveis para se sair bem.

Sobre candidatos que tentam todos os concursos, Andrade deixa um alerta: “Talvez não valha a pena tentar diversas vagas e não ter um foco”. Ele também lembra que isso pode roubar um tempo precioso de estudo para o cargo dos sonhos.

G1

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Nunca é tarde para aprender: mulher de 97 anos se forma em direito em MG

"Eu era das primeiras a chegar na escola", conta a estudante e futura bacharel de direito Chames Salles Rolim, 97
"Eu era das primeiras a chegar na escola", conta a estudante e futura bacharel de direito Chames Salles Rolim, 97


No dia 8 de agosto, a família de Chames Salles Rolim, 97, vai se reunir para comemorar o feito da matriarca: ela está se formando em direito. E a festança em Ipatinga, município mineiro que fica a 277 km de Belo Horizonte, vai ser animada: são nove filhos, 28 netos e 16 bisnetos, mais noras e genros.
 "Você [diz a futura bacharel ao repórter] também está convidado para o jantar, na sexta-feira, um dia depois da formatura. Dia de São Domingos. A família inteira vai vir. Não sei o que faço, são muitos amigos. Não dá para convidar todo mundo. Mas eu quero que todos estejam aqui", conta Chames Rolim, que deixou a piscina de sua casa, onde faz exercícios matinais diariamente, para conversar com oUOL, na manhã desta sexta-feira (18). Ela diz que está muito feliz e "satisfeita com a vida".
Viúva desde 1997, ela só decidiu retomar os estudos em 2009, quando estava com 92 anos. Quando o marido era vivo, ele não a deixava estudar. Ela se casou aos 17 anos com o comerciante José Maria Rolim em Santana do Paraíso (MG), que fica cerca de 250 km de Belo Horizonte. Lá, eles trabalharam juntos na farmácia da família por 63 anos. Após a perda do marido, Chames foi morar com um dos netos, José Irnac Rolim em Ipatinga, quando tinha 80 anos.

Vestibular e faculdade

Ela atribui um infarto que teve na época do vestibular à tensão das provas. "Foi terrível. Eu não conseguia aprender. Não guardava as coisas. Fiquei dez dias na UTI (Unidade de Tratamento Intensivo) do hospital", afirma. Ela explica que, no período de convalescência, recebeu um grande "apoio e solidariedade" da família e dos amigos. E ela foi aprovada em direito na Fadipa (Faculdade de Direito de Ipatinga).
"Eu me dediquei muito nesses cinco anos. Eu era das primeiras a chegar na escola", conta.
Na última quarta-feira, 16, Chames Rolim foi ao fórum de Ipatinga para cumprir o último requisito para a conclusão do curso de direito: acompanhar a realização de audiências de julgamentos. "Não conhecia nada aqui. Nunca tinha vindo ao fórum. Mas estou assimilando o máximo que posso".
Ela diz que não vai tentar fazer a prova de habilitação na OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) para exercer a profissão de advogada: "Sei que a minha idade não me dá muito prazo. Por isso, o que eu quero é ser útil a quem me procurar, compartilhar o conhecimento. Se não souber responder algo, vou orientar a pessoa a procurar quem saiba".

UOL

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Ex-flanelinha, juiz do DF se prepara para doutorado e sonha com o STF

Depois de perder o pai, ele ainda vendeu bananas e foi ajudante de obra.
Chagas realizou sonho ao comprar leite condensado aos 13: 'dia mais feliz'.


O juiz Edilson Enedino Chagas, que foi flanelinha e vendedor de bananas na infância (Foto: Raquel Morais/G1)O juiz Edilson Chagas, que foi flanelinha e vendedor de bananas na infância e hoje é o titular da Vara de Falências, Recuperações Judiciais, Insolvência Civil e Litígios Empresariais do DF  (Foto: Raquel Morais/G1)
Quem vê o juiz brasiliense Edilson Enedino das Chagas se desdobrando entre os processos da Vara de Falências, o posto de professor de direito empresarial e a preparação para o doutorado mal pode imaginar que esse é um desafio pequeno perto dos quais já precisou enfrentar. Seu primeiro trabalho foi aos 8 anos, como vendedor de bananas, para ajudar a mãe. Desde então, ele já foi vendedor de picolés, flanelinha, jornaleiro, ajudante de obras e faxineiro. Mas orgulho mesmo o magistrado sente quando fala sobre o que espera para o futuro: "um sonho? Poder ser nomeado para o Supremo Tribunal Federal. Mas é uma chance em 5 milhões", diz, entre risos.
Quando meus filhos olham torto para a comida fico realmente triste. Eu, na idade deles, não queria nada de extravagante. Só queria arroz, feijão e bife. Isso deveria ser um direito fundamental, toda criança deveria ter isso. Então, sim, me dói ver alguém olhar para um prato de comida e dizer que não quer ou que não há nada de bom."
Edilson Chagas, juiz do DF
Experiência de vida para ocupar o cargo de ministro ele acredita ter o suficiente. Chagas nasceu em 1970 e começou a enfrentar dificuldades assim que deixou a maternidade. Filho de um tratorista e uma dona de casa, ele morava em uma invasão no Paranoá e dividia o pouco espaço do barraco com os quatro irmãos. Quando tinha 1 ano, o pai conseguiu uma casa de um único cômodo por meio de um programa habitacional.
"Essa talvez tenha sido a maior âncora que meu pai nos deixou. Casa dá dignidade. Poder entrar em um lugar e fechar a porta, dizer que é o seu porto, onde você pode ancorar o seu navio, dá um alívio enorme", afirma Chagas.
Pouco depois o pai morreu e a família começou a lidar com problemas ainda maiores. Os filhos e a viúva precisavam se virar com um salário mínimo por mês. Sem dinheiro nem para comprar comida, eles dependiam de doações da Legião Brasileira de Assistência, programa assistencial do governo federal, que distribuía sopas para grávidas. O alimento era usado nos cafés da manhã, almoços e jantas durante a maior parte do mês.
Cansado de ver o sofrimento da mãe para garantir a sobrevivência da família e tendo aprendido que não podia pegar nada que fosse dos outros, mesmo que fosse emprestado, aos 8 anos ele decidiu trabalhar. O garoto foi a uma distribuidora de frutas e pediu uma caixa de bananas para vender durante o dia. O acordo era que, depois de quatro horas, ele devolveria o que restasse e dividiria os lucros com o dono.
Edilson na infância, usando roxo, em foto tirada com os irmãos (Foto: Edilson Enedino Chagas/Arquivo Pessoal)O juiz de Brasília Edilson Chagas na infância,
usando roxo, em foto tirada com três dos irmãos
(Foto: Edilson Chagas/Arquivo Pessoal)
"Eu ganhava o equivalente a R$ 5 por dia, mas eu me sentia muito feliz. Foi com esse trocado que a gente pôde, por exemplo, passar a comprar pão do dia. Aquilo foi realmente um sonho para a gente. Imagina não precisar esperar para só comprar pão amanhecido! Só que, é claro, o que eu colocava na mão da minha mãe não durava, e de fato era bem pouco. Ainda assim, me sentia satisfeito com o pouquinho que a gente conseguia a mais", lembra.
Meses depois, observando que o rendimento era pequeno, o menino passou a vender picolés. Ele percorria cerca de oito quilômetros todos os dias para vender 40 unidades e lucrava até R$ 6. As dificuldades eram com crianças mais velhas que se recusavam a pagar e chegavam a agredi-lo. "Mas, quando dava certo, era bom. Dava a manteiga. E, às vezes, rendia até um fígado de galinha ou o dorso do frango. A sensação era de cumprir um dever."
Aos 13 anos, já trabalhando como flanelinha de um supermercado perto de onde morava, no Gama, Chagas conseguiu realizar seu maior sonho: tomar uma lata de leite condensado. Ele juntou as moedas ganhadas durante as sete horas de trabalho para poder comprar a guloseima que até então nunca havia entrado na casa da família.
"Quando todo mundo foi dormir, furei um buraquinho e comecei a beber. Meu Deus, aquele foi o melhor dia da minha adolescência! Eu acordei seis vezes à noite para tomar um pouquinho de cada vez, queria que nunca acabasse", conta o juiz. "Isso me instigava mais, me dava vontade de crescer. A minha fome parece que abria meu apetite para estudar, aprender, querer ir além."
A rotina de trabalho era dividida com os estudos, uma prioridade para a mãe de Chagas. Na época, ele estudava em um colégio "cheio de gangues" e os alunos usavam drogas até dentro da sala de aula. O comportamento era repudiado pelo jovem, que não havia tomado partido por nenhum dos grupos. Um dia, o rapaz foi abordado pelo líder de um deles.
"Ele pediu para que eu continuasse prestando atenção para poder ensiná-los depois as matérias e proibiu que me oferecessem drogas. Por incrível que pareça, isso me protegeu. E foi bom, porque até me deu um método de ensino", diverte-se. "Eu já troquei lanche por orientação para quem tinha dúvida. Tudo era realmente uma luta, até comer."
Sonhando em ser médico, Chagas chegou a trabalhar como ajudante de obras antes de terminar o ensino médio ao mesmo tempo em que concluía um curso profissionalizante. No mesmo período, a mãe conseguiu uma reavaliação da pensão deixada pelo marido e passou a ganhar o suficiente para não depender mais do esforço do filho. O jovem fez então curso de fuzileiro naval e prestou concurso para a Polícia Militar. Ele diz que já estava acostumado a ter o próprio dinheiro e não queria passar a depender da família.
Poucos anos depois, em 1991, o rapaz foi aprovado como faxineiro de uma empresa terceirizada que prestava serviços para o Tribunal Superior do Trabalho. A proximidade com a área de direito levou Chagas a se interessar pelo curso. Ele prestou vestibular em uma faculdade particular e conseguiu ser aprovado - a concorrência era de 27 candidatos por vaga.
Em 1998, surgiu a oportunidade para tentar uma vaga no Tribunal de Justiça do Distrito Federal. O incentivo veio de um amigo, mas o ex-flanelinha ficou reticente. "Eu pensava: 'Moço, quem é que passa assim nisso?' Só me vinham esses pensamentos. 'Por que você? Olha que tipo de emprego você já teve, você vendia bananas.' Achava a ideia absurda."
Chagas decidiu fazer o concurso mesmo assim e, sem abandonar o trabalho, passou três meses se dedicando à preparação para a prova. Havia quase 900 inscritos para 38 vagas, e, pouco antes da aplicação dos testes, uma lei aprovou a criação de mais 110 vagas.
"Pensei: 'Agora eu passo'. Então ouvi uma voz que me perguntava se eu dependia da quantidade de vagas. Pensei em Deus e pedi que ele me perdoasse. Mas aí eu disse: 'OK, não dependo da quantidade de vagas, dependo de ti. Mas se ainda assim puder me dar uma vaguinha, eu agradeço'. Fui sincero", lembra, bem-humorado.
O juiz Edilson Enedino Chagas, na sala de audiências da Vara de Falências, Recuperações Judiciais, Insolvência Civil e Litígios Empresariais do Distrito Federal (Foto: Raquel Morais/G1)O juiz Edilson Enedino Chagas, na sala de audiências da Vara de Falências, Recuperações Judiciais, Insolvência Civil e Litígios Empresariais do Distrito Federal (Foto: Raquel Morais/G1)
O cansaço da prova extensa deu lugar à ansiedade. O magistrado lembra que decidiu ligar para a responsável pela prova na segunda-feira seguinte para perguntar se já havia resultado. Após ouvir uma resposta positiva por telefone, questionou: "E eu, passei?".
"Eu nunca vou me esquecer disso: 'Doutor Edilson, o senhor passou, sim. E pode preparar o discurso de posse, porque o primeiro colocado sempre discursa. E essa pessoa é você.' Eu não cabia em mim", afirma Chagas.
Vida após virar juiz
Depois de assumir uma vaga no Tribunal de Justiça, o ex-flanelinha também passou a dar aulas. Ele concluiu o mestrado em direito e atualmente se prepara para fazer doutorado em psicanálise. Bastante religioso, ele aproveita os finais de semana para fazer obras assistenciais da igreja que frequenta no Gama.
Meu prazer é fazer compras. Essa marca ficou em mim. Às vezes saio da faculdade às 22h e vou correndo ao supermercado. E se tem algo que me dói é ver uma pessoa na fila do caixa tendo que escolher o que levar, por não ter dinheiro para tudo. Um dia eu acabei pedindo à mulher para passar todas as coisas, não deixar nada, paguei a diferença. Dói ver a pessoa tendo que se decidir entre o básico, não havia nada de supérfluo."
Edilson Chagas, juiz do DF
"Ter crescido na escassez me ensinou a valorizar tudo o que chega para mim. Tudo o que me feriu eu tento evitar que aconteça a outras pessoas", disse ao G1. "Nunca peguei o que é dos outros, nem emprestado. O meu pode ser o pior ou o mais feio, mas é o meu. É como a nossa casa zero-quarto [de um único cômodo, conseguida pelo pai]."
Mesmo se considerando sem traumas ou mágoas por causa do passado difícil, o magistrado confessa que mantém alguns pensamentos da infância. Um deles é a mania de economizar e o sentimento de culpa quando compra algo caro, como quando precisou ser "convencido" pela mulher de que merecia ter um "carro do ano". O outro é gostar de ir a supermercados.
"Meu hobby é dar aula, mas meu prazer é fazer compras. Essa marca ficou em mim. Às vezes saio da faculdade às 22h e vou correndo ao supermercado. E se tem algo que me dói é ver uma pessoa na fila do caixa tendo que escolher o que levar, por não ter dinheiro para tudo. Um dia eu acabei pedindo à mulher para passar todas as coisas, não deixar nada, paguei a diferença. Dói ver a pessoa tendo que se decidir entre o básico, não havia nada de supérfluo", conta Chagas.
O magistrado se orgulha de os três filhos adolescentes não precisarem passar pelas mesmas dificuldades que ele viveu. Na época, a mãe é quem fazia as roupas para as crianças, já que não havia dinheiro para comprá-las. Já o trio pode escolher o que quer, inclusive em relação à alimentação.
"Mas quando meus filhos olham torto para a comida fico realmente triste. Eu, na idade deles, não queria nada de extravagante. Só queria arroz, feijão e bife. Isso deveria ser um direito fundamental, toda criança deveria ter isso", diz o juiz. "Então, sim, me dói ver alguém olhar para um prato de comida e dizer que não quer ou que não há nada de bom."
O juiz Edilson Enedino Chagas, junto com a mulher e os filhos em viagem aos EUA (Foto: Edilson Chagas/Arquivo Pessoal)O juiz Edilson Enedino Chagas, junto com a mulher e os filhos em viagem aos EUA (Foto: Edilson Chagas/Arquivo Pessoal)
Com uma rotina puxada - o juiz faz questão de despachar em até 24 horas os cerca de 40 processos que recebe por dia, Chagas sonha em poder levar a vivência difícil para uma cadeira no STF. Ele acredita que as chances são remotas e já se planeja para trabalhar na área de direito empresarial quando se aposentar.
"Depois que o Joaquim Barbosa anunciou que sairia, todo mundo passou a brincar comigo. Eu gostaria muito, acho que seria uma vitória de verdade. Acho que posso contribuir com essa visão de quem vem do povo", declarou. "Eu não consigo ir para casa sabendo que tem gente dependendo de mim, precisando de mim. Eu já esperei muito dos outros e nem sempre tinha quem me estendesse a mão. Por isso, gosto de dar suporte quando isso está ao meu alcance."
G1

Lavador de carros passou no exame da OAB antes de se formar

Flávio Dias, 36 anos. Por muito tempo, lavar carros era sua única fonte de sustento. Hoje, ele divide a rotina entre um cartório e uma loja de materiais de construção, trabalhando sete dias por semana. Anos atrás, o piauiense jamais poderia imaginar que concluiria a faculdade de Direito, tampouco passaria no
Exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) antes de colar grau.

São três empregos em busca do sonho de mudar de vida. Prestes a começar o último semestre letivo, Flávio pretende advogar, se especializar em processo civil e, quem sabe, ser professor.

Ele desembarcou em Brasília de Floriano (PI), prestes a completar 18 anos. A intenção era procurar um emprego formal. Sem sucesso, ficou sete anos lavando carros. “Não tenho vergonha. Sustentei minha família por muito tempo assim. Nunca passei fome e sempre achei pessoas que me ajudassem”, conta.

Sua vida começou a mudar há cinco anos, quando o segundo filho perguntou quando Flávio teria um carro para buscá-lo na escola. Até então, os únicos veículos em que o futuro advogado havia colocado as mãos eram os que lavava todos os dias na Praça do DI, em Taguatinga.

O questionamento da criança,  de quatro anos, o impulsionou a voltar a estudar. Ele  arregaçou as mangas e, em segredo,   prestou vestibular para Direito em uma universidade particular.  “Quando passei, me deparei com um segundo problema: pagar”.

De plantão na sala do reitor da Universidade Católica, conseguiu conversar com a autoridade e, depois   de muita insistência, garantiu bolsa de 50%. “Não queria me menosprezar por ser negro e pobre, mas falei a realidade e disse que queria mudar a minha perspectiva e o futuro de meus filhos”, lembra. Mais tarde, teve bolsa integral.

Sempre em busca de uma oportunidade

Trabalhando próximo ao Cartório do 5º Ofício de Notas, em Taguatinga, Flávio conhecia todos os funcionários e resolveu pedir uma oportunidade. Conversou com o tabelião Ronaldo Ribeiro de Faria, que tantas vezes deixou o veículo em suas mãos.  Assim, começou no setor de limpeza, passou pela segurança e agora é auxiliar notarial.

O patrão se orgulha do funcionário e acredita que será um bom advogado por ser dedicado e persistente. “É muito importante quando a gente pode ajudar quem tem competência e mostra força de vontade. Ele retribui a oportunidade que demos”, reconhece o tabelião.

Mesmo com a carreira no Cartório, Flávio continua lavando carros para completar a renda e porque gosta da atividade. “É um serviço que me distrai, diminui o estresse e queima calorias, já que estou um pouco acima do peso”, brinca.

Maior conquista

Assim como o vestibular, o Exame da Ordem foi feito em segredo. Ele não gastou um centavo para a primeira fase, mas comprou aulas online para a última etapa.

 “Respondi quase duas mil questões nos testes reforçando o que eu sabia e aprendendo o que faltava”, lembra. Como resultado, acertou 57% da prova objetiva.

Flávio viu o resultado sozinho no trabalho. Antes de abrir a página, fez uma oração e, quando se deparou com seu nome, gritou e chorou de felicidade. Saiu ligando para familiares, amigos e conhecidos e, depois, ainda postou em uma rede social para avisar os mais distantes do fato que se tornou a maior  conquista de sua vida.

Memória

Flávio Dias não é o único que, com dificuldades, conseguiu crescer e mudar de vida. No ano passado, o médico Josinaldo da Silva, de 36 anos, foi o primeiro índio a concluir o curso na Universidade de Brasília (UnB).  Integrante da tribo Atikum, veio do sertão de Pernambuco e recebeu o diploma de um pajé. Passou fome, sofreu com a falta de água e de investimentos na terra natal e tinha o objetivo de ajudar seus conterrâneos.

Em 2012, um ex-morador de rua se formou em pedagogia na UnB. Sérgio Ferreira,   36, passou no vestibular quando ainda vivia nas ruas do DF.  Em sua monografia, relatou as dificuldades de adaptação à academia depois de anos vivendo sem regras.

Fonte: Da redação do Jornal de Brasília